Sexta-feira, 29 de Fevereiro de 2008

Propósito e Motivação

Não consigo encontrar um propósito de Deus para minha vida até que encontre alguém no meu caminho.

Não consigo entender as razões pelas quais o cristianismo, digo, a religião tanto profana o solo sagrado das relações inter-pessoais, provocando erosões, assoreando rios, podando árvores e pisoteando brotos.

Portanto, a única motivação que poderia levar-me à igreja é a mesma que me faz sentar à mesa de um bar.

Quinta-feira, 28 de Fevereiro de 2008

Flores no Asfalto

Sob o cobertor azul cinzentado ainda repousava lânguido o sol. Por sua vez, em contraste, o ranger das engrenagens dos motores se antecipavam na madrugada e as badaladas dos martelos na bigorna da lida anunciavam a alvorada num grito metálico e irritante. Nem o hálito adocicado das padarias e o olor divertido do café pareciam convencer aquele corpo pesado e preguiçoso da hesitação em levantar-se do leito do horizonte. Lento, o sol vacilava entre o efeito aguçador do desejo que lhe provocavam aqueles aromas e o receio da mesmice e da possibilidade de não experimentar o inusitado, o novo.

As lotações abarrotadas carregavam sonhos e ambições para desembarcá-los na estação da rotina. Corpos apertados uns contra os outros não se tocavam, não se sentiam. E as janelas passageiras percorriam as ruas da cidade sem apreciar o instante que passava o tempo todo.

Foi bem ali, entre os coletivos que se enfileiravam num ponto de embarque e desembarque, que se formou um espaço como que uma tela de cinema, onde o inusitado editou uma cena da vida que marcou minha memória e abriu minha consciência para a significação e significância do que é o momento presente. Foi uma cena muito rápida, mas digna de uma representação gráfica como iludida tentativa de eternizar o belo que foge.

O fato é que naquele local de ponto de ônibus ocorria um descarregamento de flores. Como formigas à porta de sua galeria os carregadores adentravam com aquelas caixas de flores figurantes no Centro de Convenções Minascentro: uma colação de grau, conferência de auto-ajuda ou palestra de enriquecimento pessoal e profissional, quem sabe. Para lá foram carregadas com a finalidade de adorno e, posteriormente,seriam descartadas.

Durante o carregamento uma das flores caiu no chão revestido de pedra portuguesa entre folhas que se precipitavam das caixas e espraiavam pela calçada em meio a toda aquela pressa e tropel dos pedestres.

Foi exatamente a figura mais improvável aquela que passou, agachou-se, apanhou a flor, a trouxe junto de si e a cheirou, enquanto seguia seu caminho. Sim! Aquele homem de meia idade, de aspecto rude, protagonista de uma cena que se eternizou na minha mente por destacar aquela flor que se perdeu, remeteu-me a imagem daquele Bom Pastor que, deixando as 99 ovelhas no aprisco, foi em busca daquela uma que se extraviou.






Foi um breve momento, mas extremamente denso.





As flores são poderosas. Sua fraqueza pode estar no receio do tempo, mas sua força está no poder que têm de aprisionar o tempo no instante e guardá-lo na fragilidade de suas pétalas.

Não dariam todas as outras flores que se foram e se perderam na ornamentação o glamour que não lhes pertencia em troca daquele momento único e exclusivo?

Não renunciariam os anjos suas asas para ser aquele homem que toma a flor e se delicia em seus sentidos daquela suave fragrância, terna textura e mágico matiz?

Não se desvestiriam as estrelas distantes no céu de seu brilho frio para se sentirem acalentadas por aquelas mãos?

Não renunciariam os homens todo o poder, riquezas e status de uma vida inteira sem amor, por um breve, mas autêntico instante de atenção e amor ao que de fato se é?

Terça-feira, 26 de Fevereiro de 2008

Meu Tempo

Sou também meu passado e desafio a mim mesmo a discordar do clichê Não se vive de passado, ou imponho a mim uma ótica diferente sobre o tema.

Eu sou meu próprio tempo. Eu sou um “sendo” o tempo todo. E gosto de pensar o tempo em termos de categorias: tempo físico, tempo natural, tempo urbano, tempo-consciência, sobretudo.

Não gosto de pensar, por exemplo, em tempo passado como aquela dimensão a partir da qual se faz contabilização de saldo. Não há uma foz que assinala a imensidão de novas águas, se não houver todo um percurso de um rio. Não há como descartar o passado, seja ele bom ou ruim. O passado é como um rio que se torna mais volumoso, mais denso e abrangente. Não há, portanto, uma retrospectiva a se fazer como se o passado estivesse desassociado de mim de maneira tal, que minha relação com as lembranças de minhas histórias seja meramente objetal. Por isso não gosto da metáfora que sugere a vida como um livro que a gente tira da estante e ... - "Eis aí a minha vida" - embora a (auto) biografia de um ser humano se justifica pela densidade com vive ou viveu sua existência. Nessa perspectiva não existe passado. O que passou me fez até aqui, logo carrego comigo todas as marcas, os ganhos e as perdas. O meu passado é minha educação e minha experiência vivida no tempo. Logo, passado ainda é. Sendo assim a soma de todos os meus equívocos, acertos, desejos e náuseas, escolhas e arbitrariedades – e também dos riscos.

Viverei eu do passado então? De certo modo sim. Se sou a soma de todos os meus dias, inevitavelmente sou o resultado de todas as escolhas no tempo e dos acidentes indesejáveis e dos acasos oportunos. Eu sou meu próprio passado.

Se o momento instante que a vida me dispõe serve apenas para alimentar uma amargura letárgica com o meu “sendo instante” e com tudo mais que o acompanha, certamente amanhã serei o mesmo, sem nada acrescentar, como se não tivesse saído do lugar.

Assumindo meu passado mudanças podem acontecer a partir de sua conexão e interação com o momento instante, e não com projeções do tempo futuro. Se o que sou hoje é resultado do que fui ontem, e se, por um acaso, isso não me agrada, esse mesmo “sendo” hoje me tornará o mesmo amanhã. Logo fala mais uma vez o passado. O não agradar-me do que sou hoje pode ser uma pedra de tropeço, mas pode ser também uma placa balizadora de novas vias a serem escolhidas. Se o momento instante que a vida me dispõe serve apenas para alimentar uma amargura letárgica com o meu “sendo instante” e com tudo mais que o acompanha, certamente amanhã serei o mesmo, sem nada acrescentar, como se não tivesse saído do lugar. Ora, é aqui que toda lamentação se torna extremamente frutífera, caso a ela se aliar a consciência do fato de que o amanhã ainda não é, e pode ser tudo ou pode ser nada, não deixando de acrescentar o fato de que não há controle, não há visão linear e estanque do tempo e nem basta traçar linhas cartesianas para se obter bons resultados. Só a partir da constatação dessa obviedade eu consigo “esquecer das coisas que para trás ficam, e avançar-me para as que diante de mim estão” - como afirmou São Paulo. Por saber-me ser passado, posso desvencilhar-me de tudo o que leva à estagnação.

O tempo que se me acrescenta cada dia faz-me mais um pouco, acrescenta-me no tempo que me é tirado. Quanto mais se tira de mim, mais me percebo inteiro. Essa é a categoria de tempo a que chamo de tempo-consciência, tempo que não habita espaço nem velocidade.

Igualmente a verdade aparecerá como uma ruga na face do tempo.

Quinta-feira, 14 de Fevereiro de 2008

Gritos D'Alma

Sempre houve algo que minha alma tanto desejou e que meu corpo, no entanto, não pode experimentar. Eis que nascia minha liberdade e com ela, o sofrimento e a imaginação.

E, dentre as coisas que meu corpo experimentou, havia algumas pelas quais minha alma nutria repulsa. Eis aí a submissão, a contradição e o fastio. Consumaram-se minhas experiências de ser humano e ser escravo, e de um sofrimento menor.

Somente na minha vida maçante de excessos e extremos – e eu sabia muito bem até onde poderia chegar - pude ouvir os gritos perturbadores d’alma.




Sequer os dogmas podiam evitar tanto os excessos quanto os gritos, pois jamais compraram minha libertação. Antes, sibilavam em meus ouvidos como açoites que cortavam o ar e impiedosamente sulcavam minhas costas, enquanto meu corpo nu pendia inerte, preso pelas mãos às argolas que serviam de adorno daquela figura opulenta que se destacava no totem por sua expressão severa. Isso mesmo! Fui amarrado naquele objeto fálico que se erigia no meio da praça de meu clã, em torno do qual meus pares e traidores de si mesmos – para não dizê-lo de mim apenas - prestavam seu culto densamente ritualístico, enquanto meu corpo era flagelado. Minha consciência já estava atordoada pelos golpes desferidos da culpa.

Minha alma fora lançada num inferno. Esse era o sofrimento maior.

Todos aqueles excessos irracionais em nada não comoveram a Deus, à exceção de sua Graça. Isso sim era constrangedor.
“Pois o amor de Cristo nos constrange ...”

Quarta-feira, 30 de Janeiro de 2008

Estranhas Iguarias

O banquete já está posto
Entre as iguarias que conheço
Estão preparados animais estranhos a mim:
Quadrúpedes, répteis da terra e aves do céu
Sobre um límpido forro de linho branco.
Meus sentidos se me arrebatam
Estou atordoado. Estarrecido.
O Cordeiro que achava ser tão típico
Tão meu! Tão meu!
Também à mesa de “Cornelius”
Partido e repartido!

Oh! Vem Pedro, vem!
Senta-te conosco à mesa
Ceias com os estrangeiros!
Os animais já estão limpos!
As mãos já estão limpas!

Sim! Venho e me deleito!
O Senhor mostrou-me
Que a nenhum homem
Eu chame imundo!

Vou comer essa carne suculenta
Vou desnudar a minha alma
E festejar a dança
Celebrar a vida
Já não suporto essa roupa
Não sou boneco de cera
Não sou o palhaço
Que se esconde atrás de um espelho
Não vou cultuar o culto que não quero
Caso contrário não seria em espírito e em verdade.

Sim!
Sou aquele filho que disse o “Não”
Sim!
O mesmo que fez o “Sim”
Pois não quero ser o filho mentiroso
Disse que ia, mas não foi.
Cantou, mas não adorou.
Eu sou aquele pássaro que canta
No recôndito da floresta negra
E não sabe que adora a Deus
Ninguém o sabe
Pois todo ser que respira louve ao Senhor!

Senhor, eu sou o filho pródigo!
Não foi em minha própria casa que te conheci
Foi no poço em que caí
No poço da minha própria alma
Na lama de minhas paixões
E tu estavas lá também
No mais profundo abismo.
Mas eu não.
Eu era um desalmado.
Uma imitação, uma coreografia.
A repetição enfadonha
Apenas a letra e a pedra
Um violão lustrado

Agora sou o violeiro!
Dizem que sou poeta
E tu, Senhor! Só Tu sabes
Como venho a ti!
E venho mesmo como estou
“Porque Jesus por mim morreu,
Eu venho como estou”!
A alma partida, mas inteiro
A quem não veio
Esmagar a cana quebrada!
Estou entre as meretrizes
E os publicanos:
Os últimos da fila.
Eles precederão os sacerdotes.
E tu, Senhor!
A Tua Graça me basta!


Atos 10; Mateus 21: 18-32

Sexta-feira, 25 de Janeiro de 2008

Liberdade?

Ai miserável de mim e infeliz!
Apurar, ó céus, pretendo,
já que me tratais assim,
que delito cometi
contra vós outros, nascendo;
que, se nasci, já entendo
qual delito hei cometido:
bastante causa há servido
vossa justiça e rigor,
pois que o delito maior
do homem é ter nascido.
E só quisera saber,
para apurar males meus
deixando de parte, ó céus,
o delito de nascer,
em que vos pude ofender
por me castigardes mais?
Não nasceram os demais?
Pois se eles também nasceram,
que privilégios tiveram
como eu não gozei jamais?
Nasce a ave, e com as graças
que lhe dão beleza suma,
apenas é flor de pluma,
ou ramalhete com asas,
quando as etéreas plagas
corta com velocidade,
negando-se à piedade
do ninho que deixa em calma:
só eu, que tenho mais alma,
tenho menos liberdade?
Nasce a fera, e com a pele
que desenham manchas belas,
apenas signo é de estrelas
graças ao douto pincel,
quando atrevida e cruel,
a humana necessidade
lhe ensina a ter crueldade,
monstro de seu labirinto:
só eu, com melhor instinto,
tenho menos liberdade?
Nasce o peixe, e não respira,
aborto de ovas e lamas,
e apenas baixel de escamas
por sobre as ondas se mira,
quando a toda a parte gira,
num medir da imensidade
co'a tanta capacidade
que lhe dá o centro frio:
só eu, com mais alvedrio,
tenho menos liberdade?
Nasce o arroio, uma cobra
que entre as flores se desata,
e apenas, serpe de prata,
por entre as flores se desdobra,
já, cantor, celebra a obra
da natura em piedade
que lhe dá a majestade
do campo aberto à descida:
só eu que tenho mais vida,
tenho menos liberdade?
Em chegando a esta paixão
um vulcão, um Etna feito,
quisera arrancar do peito
pedaços do coração.
Que lei, justiça, ou razão,
nega aos homens - ó céu grave!
privilégio tão suave,
exceção tão principal,
que Deus a deu a um cristal,
ao peixe, à fera, e a uma ave?

MONÓLOGO DE SEGISMUNDO
(LA VIDA ES SUEÑO, Ato I, Cena I)

de Pedro Calderón de la Barca

Liberdade

Ai que prazer
não cumprir um dever.
Ter um blog para escrever
e não o fazer!